1 de fevereiro de 2012

What a Wonderful world




Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso (What a wonderful world – Louis Armstrong)
 






Faltam 10 minutos para acabar o expediente...esta é a última vez que vou usar este uniforme operacional. Quando vier novamente ao Quartel General  será  com outro uniforme e apenas para a cerimônia de despedida do serviço ativo do Exército. Entrei aqui ainda criança e com o tempo, como  já foi dito tantas vezes por outros que nos antecederam,  este uniforme foi deixando de ser apenas um uniforme e se transformando aos poucos em uma segunda pele, a qual não creio que seja possível retirar facilmente.

Tenho pelo Exército Brasileiro um profundo sentimento de gratidão, pelas oportunidades que ele me ofereceu. Nesses últimos 31 anos, tudo que consegui ou deixei de conseguir, ocorreu exclusivamente em função dos meus próprios méritos.
Nunca me perguntaram quem era o meu pai, qual a minha classe social, qual a minha religião ou qual a minha origem étnica, para definir se eu seria promovido ou se seria indicado para realizar um determinado curso. As perguntas que fizeram sempre foram...qual a sua classificação na Academia Militar? Qual a sua antiguidade? O seu perfil e o seu desempenho profissional o habilitam para realizar o que está pretendendo? 
          
Neste exato momento, em que estou encerrando meus trabalhos, penso no modo como as gerações de militares vão se sucedendo ao longo do tempo. De um modo silencioso e totalmente imperceptível cada geração passa para a geração subsequente uma instituição melhor do que  recebeu.

Gerações passadas preservaram integridade territorial do Brasil, quando da Independência, outras ajudaram a tornar o Brasil uma República Federativa. Houve aqueles que foram para a Itália, na 2ª Guerra mundial, e ao retornarem, abandonaram a influência francesa no Exército e adotaram o modelo Norte Americano de organização. Foi essa geração que levou o Exército do século XIX para o século XX.
         
 Houve uma geração de militares cuja árdua missão foi impedir que o Brasil se tornasse um país socialista, aos moldes do que hoje é Cuba. Isso foi feito e hoje somos uma Democracia pujante e prestes a nos tornamos um Global Player...mas isso teve um preço. 

Ao final do período de governos militares o Exército estava com a imagem desgastada pelo exercício do poder. Aquele momento histórico, coincide exatamente com o momento em que a minha geração estava ingressando no Exército Brasileiro, no início da década de 80.
Coube a esta geração, que aos poucos começa a ocupar os postos mais elevados da carreira militar, contribuir com recuperação da imagem do Exército, buscando a todo custo evidenciar o profissionalismo e a seriedade da nossa instituição. Vivemos também um período em que o orçamento do Exército foi reduzido. Coube-nos melhorar a gestão dos recursos, otimizando todos os nossos sistemas. Foi nesse período que surgiu o lema: “Exército Brasileiro: Braço Forte – Mão Amiga”. Uma frase que sintetiza de um modo simples quem somos e o que devemos fazer pelo Brasil.
          
O último presidente militar entregou o poder aos civis em 1984. Decorridos apenas cinco anos, as Forças Armadas já estavam listadas entre as três instituições brasileiras com o maior índice de credibilidade no país, de acordo com pesquisa realizada por órgãos especializados.

Administrativamente, o Exército evoluiu muito nos últimos 30 anos. Em meados da década de 90, houve uma tentativa de implantar um sistema de gestão pela qualidade total. Embora o projeto não tenha alcançado plenamente os objetivos planejados, ele foi o ponto de partida para um projeto muito mais amplo e ambicioso, que começou a ser implantado a partir do final da década de 90.
         
 O Sistema de Excelência Gerencial, fortemente baseado em Tecnologia da Informação e em modernas técnicas de gestão, colocou o Exército num padrão de eficácia, eficiência e efetividade jamais visto anteriormente. Atualmente a Força Terrestre faz melhor e faz muito mais, empregando menos recursos.
        
Hoje, quando vejo nossos jovens capitães, tenentes e sargentos desempenhando suas funções e realizando suas tarefas diárias, fico pensando no grande desafio que os aguardam no futuro.Vai ser esta geração, que está começando agora a carreira militar, quem vai lançar as bases para o Exército da Transformação, o Exército do século XXI.
         
Os estudos prospectivos indicam cenários muito mais complexos e ameaçadores para o nosso país, nas próximas décadas. Escassez de alimentos, crise enérgética, questões ambientais, terrorismo internacional, cyberterrorismo e outras variáveis exigirão um Exército muito melhor preparado do que o que temos hoje. É certo que a simples modernização do material de emprego militar não será suficiente para fazer frente às ameaças que certamente farão parte desse futuro incerto.
         
Esta geração, que aos poucos vai se tornando predominante na instituição, certamente será bem sucedida em sua missão. Ela tem a seu favor muitos aspectos positivos. Eles estão recebendo em nossas Escolas Militares uma formação muito  melhor e mais abrangente do que nós recebemos. Isto ocorre porque eles colhem os frutos dos trabalhos de modernização do ensino no Exército, iniciados da década passada. Eles também assimilam com mais facilidade e rapidez as novas tecnologias. Um outro fato interessante é que eles desde crianças, jogam games eletrônicos sem saber inglês e sem terem manuais de instruções. E com isso eles aprenderam a jogar e ganhar uma partida de qualquer jogo, mesmo sem saberem exatamente quais são as regras deste jogo. Isto será essencial no ambiente de incerteza que enfrentarão.
          
Pensando bem, é tranquilizador saber que esta nova geração está melhor preparada e mais capacitada do que nós éramos, quando tenentes. Vejo isso e compreendo a profundidade dos versos do Louis Armstrong ….

What a Wonderful World

- I see trees of green, red roses too

- I see them bloom for me and you

- And I think to myself, what a wonderful world

- I see skies so blue and clouds of white

- The bright blessed days, the dark sacred night

- And I think to myself, what a wonderful world

- I hear babies cry, I watch them grow

- They'll learn much more, than I'll never know

- And I think to myself, what a wonderful world

- Eu vejo as árvores verdes, rosas vermelhas também
- Eu as vejo florescer para mim e você

-E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

- Eu vejo os céus tão azuis e as nuvens tão brancas
- O brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite

-E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

-Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
-Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei

-E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

Esta nova geração que agora, neste exato momento, está dando os primeiros passos da carreira militar, nas salas de aula e nos campos de instrução da Escola Preparatória de Cadetes, da Academia Militar das Agulhas Negras e dos Cursos de Formação de Sargentos de Carreira, aprenderá muito mais do que jamais saberemos, será muito melhor preparada do que fomos e entregará para a sociedade brasileira um Exército  melhor do que o que temos hoje.
Então eu penso comigo mesmo..."que mundo maravilhoso”.


            Marco Antônio Maluf Barroso


What a Wonderful World:   http://www.youtube.com/watch?v=MVI-bCF79gI


3 comentários:

  1. Parabéns, Marco Antonio.

    Ler seu texto me faz ainda mais orgulhoso de ter pertencido ao EB.
    Forte abraço!

    Magno Soares

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  2. Parabéns Marco Antônio!!! Muito bem colocadas tuas idéias!!!!É um prazer ler o que escreves!!Abraço,Cristine.

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  3. Parabéns pelo texto!!!é sempre um prazer ler o que tu escreves,um abraço! Cristine

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